Uma carta às Mulheres
6 março 2020 - belohorizonte

Uma carta às Mulheres

Por Pati Antunes e Alessandra Giordano, escaladoras, feministas, empoderadas.

Você já se sentiu paralisada pelo machismo?

Você já entrou em um ambiente em que foi fuzilada por olhares e cochichos? Já esteve em um lugar onde só havia homens e eles te encaravam como se você estivesse invadindo aquele espaço ou se como você fosse um sorvete de chocolate gostoso? Por último e não menos importante, se imagine neste mesmo ambiente sendo bombardeada por olhares e comentários desnecessários, preconceituosos e agressivos vindo de outras mulheres?

Se você já se viu em uma dessas situações, saiba que não está sozinha.

Muito prazer, meu nome é Pati Antunes, tenho 34 anos, escalo profissionalmente há 12 e passei por diversos momentos assim dentro do ambiente do esporte. Preciso confessar, também já fui uma dessas mulheres machistas. Sim, falta sororidade entre nós. Infelizmente vivenciei situações completamente absurdas e preconceituosas, mas que por outro lado, me abriram os olhos e hoje me vejo completamente curada e vestida com uma armadura bem forte contra comentários e atitudes de baixo nível. Não que eu tenha certeza de como reagir a qualquer situação, muito pelo contrário, aprendo todos os dias e compreendo que esse processo é necessário pois todos temos o direito de errar, mas temos o dever de aprender com os erros e cagadas da vida!


Neste mesmo ambiente masculinizado conheci o homem mais feminista da minha vida, meu marido! Ele foi uma das pessoas que me mostrou que sexo frágil não existe e que a mulher tem sim que ser protagonista de sua própria história. Confesso que em alguns momentos até sinto falta daquele homem que faz questão de trocar a lâmpada em casa!Brincadeirinhas a parte, ele sempre me colocou para frente, me ensinou essas tarefas ditas “masculinas”, e que mulher carrega mochila pesada na trilha sim, apesar de acabar cedendo as minhas chantagens quando estou cansada. Me vejo hoje totalmente independente para fazer o que quiser, inclusive manusear uma furadeira, atividade básica para um dos meus planos de profissão para o futuro, que é ser Route Setter, quem monta as vias em ginásios e competições. É uma função quase 100% masculina no Brasil, e com pouquíssimas mulheres no mundo.

Sobre a entrada das mulheres na Escalada no Brasil

Há doze anos atrás a Escalada no Brasil era composta basicamente por homens, tanto na rocha quanto em campeonatos. Ver mulheres escalando vias difíceis ou competindo era raríssimo, as mulheres pareciam não querer se expor ou não havia espaço para que elas pudessem mostrar seu potencial (muitos homens até acabavam diminuindo a importância de uma via escalada por uma mulher). Pairava no ar um sentimento de rivalidade muito forte entre mulheres, uma sensação de que não era permitido entrar numa competição para perder, seria uma grande vergonha. Porém esquecemos da premissa de que para que haja uma competição é preciso que alguém ganhe e isso só é possível para uma pessoa, e ponto! Se queremos mais representatividade e melhores resultados precisamos nos expor e principalmente nos incentivar mutuamente, assim ganharemos espaço.

Independente desse clima hostil venho me dedicando há 6 anos exclusivamente a competições, nunca pensei em desistir, pois me sinto muito realizada competindo, encontrei algo na vida que amo fazer e que me desafia, me motiva e me faz sentir viva. Conquistei alguns títulos, entre eles os mais importantes como Bi Campeã Brasileira e oito vezes campeã Mineira, além de ter sido condecorada como Atleta Destaque do Ano em 2019 pela Secretaria do Esporte de Minas Gerais.

Porém, essa rixa e o preconceito dos homens em achar que não éramos fortes o suficientes para competir e vencer sempre me incomodou, por isso em 2015 resolvi formar um grupo exclusivamente de Escaladoras que se reuniam toda semana para treinar, fofocar, rir, trocar experiências e se fortalecerem juntas. Muitas mulheres começaram a escalar pela influência deste grupo e viram ali um espaço a se conquistar, motivando e movimentando esse ambiente. Toda vez que vejo uma mulher se interessando pelos desafios sinto uma alegria enorme, é como se ganhássemos mais uma guerreira!

As mulheres no ambiente outdoor da escalada – Escalada em Rocha

Oi, aqui é Alessandra Giordano falando, sou amiga da Pati, tenho 35 anos, escalo há 7 e vejo na escalada, como também em outros esportes, a oportunidade das mulheres demonstrarem sua força, capacidade, persistência e fazerem uso das diversas modalidades esportivas como mais uma ferramenta de empoderamento!

A escalada na rocha é bem diferente da escalada de competição. Apesar de sempre exigir treino, pois é um esporte que requer muita força física, é aquele hobby de final de semana para o qual se conta os dias, sem a necessidade de compromisso como o do atleta ou sem a pressão das competições. É o que eu escolhi como esporte e como estilo de vida, que me dá sensação de completude e de preenchimento e que me transformou muito como pessoa, porque, além de tudo, traz autoconhecimento. 

Porém, na escalada outdoor o que não é muito diferente das competições é o ambiente essencialmente masculino. Felizmente a minha convivência na escalada sempre foi com homens muito respeitosos, que me colocam pra cima, me incentivam a superar meus medos e a buscar novos desafios, tanto que na escalada acabei encontrando meu parceiro de vida e de aventuras!

Mas é claro que como o machismo ainda está enraizado na nossa sociedade e sendo um ambiente majoritariamente masculino, ainda escutamos daqui e dali comentários desagradáveis ou em tom pejorativo. A verdade é que não há mais espaço para qualquer que seja o tom, as mulheres estão presentes em um número cada vez maior não só na escalada como em todos os esportes, exigindo respeito, seja do treinador, de outros competidores, de colegas, amigos e, claro, de outras mulheres. É preciso quebrar esse ciclo. Não apenas no esporte mas em todas, absolutamente todas as profissões e hobbies.

Você também pode!

A Escalada é um esporte que envolve muita força física, mas ao mesmo tempo permite através da técnica, que qualquer pessoa pratique. Há uns 10 anos atrás, não havia muitas mulheres escalando na rocha, principalmente em vias predominantemente brutas e de grau mais difícil. Hoje a realidade é diferente e cada vez mais mulheres, no mundo todo, tem a oportunidade de mostrar o seu potencial e vem sendo respeitadas no mundo da escalada. Se você tem curiosidade pela escalada ou anda em busca de um esporte para exercitar o corpo e sua alma, convidamos você a vir também! Pode ser uma experiência empoderadora para você como foi a nossa.


Texto escrito por: Pati Antunes, Escaladora Profissional, Bi Campeã Brasileira e Oito vezes Campeã Mineira, Atleta Destaque 2019 pela Secretaria de Esportes de Minas Gerais e Alessandra Giordano, Escaladora, Advogada e estudante de Nutrição.

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