Por John Croft – criador do Dragon Dreaming, treinador internacional do método e co-fundador da GAIA Fundation West Australia

Como você faz o seu próprio sonho ou de outras pessoas se tornar realidade? Atualmente, em toda parte existe uma lacuna entre como as coisas são e como elas podem vir a ser. Para alguns, esta lacuna pode ser estreita e fácil de ser atravessada. Para outros, esta pode ser um abismo largo, profundo e aterrorizante. Em certos casos as tendências apontam para um futuro com maiores problemas, com o aparente aumento de probabilidades desfavoráveis onde a possibilidade de um desdobramento para melhor parece evaporar.

Em 1983, eu estava em Mendi, na província das Terras Altas do Sul da Papua Nova Guiné, trabalhando no Projeto de Desenvolvimento Rural Integrado das Terras Altas do Sul, financiado pelo Banco Mundial, projeto este que foi desenhado para fazer a ponte sobre a lacuna descrita no parágrafo anterior. Este projeto teve uma história interessante. A província das Terras Altas do Sul foi a última parte da Papua Nova Guiné em que os exploradores europeus penetraram. Com uma população atual de quase meio milhão de pessoas, a maior parte da província só teve contato com exploradores e administradores europeus a partir das décadas de 1950 a 1960. Até então, a maior parte da população acreditava que o universo terminava onde o céu tocava a terra do outro lado da montanha que os cercava, e que os europeus eram literalmente ‘homens do espaço exterior’. O primeiro contato com os europeus foi para o povo local uma experiência semelhante ao que se teria sido um contato com seres extraterrestres que viessem nos informar que na verdade éramos parte de um império intragalático.

Em 1983, o Governo da Papua Nova Guiné, em seu segundo plano quinquenal, decidiu primeiramente solicitar que cada província criasse seu próprio plano. A partir disto o Escritório Nacional de Planejamento avaliou quais partes dos planos de cada província eram idênticos e, de acordo com a constituição nacional, deveriam ser tratadas nacionalmente, quais partes eram específicas a cada província e poderiam ser apoiadas nacionalmente, e quais partes seriam omitidas. Tal abordagem ainda é bastante recomendável e pode ser aplicada de forma favorável em qualquer “organização de ponta” que possua uma estrutura federativa representando os interesses de grupos minoritários.

O Governo das Províncias das Terras Altas do Sul, a meu pedido, havia decidido fazer o mesmo, e concordamos em usar a técnica da “Conferência de Pesquisa” (Search Conference), desenvolvida inicialmente por Fred Emery, do Centro para Educação Continuada da Universidade Nacional Australiana em Canberra. A “Conferência de Pesquisa” é uma técnica que prevê a reunião de todos os formadores de opinião e atores sociais que podem influenciar em uma determinada situação, para considerar as lacunas existentes entre os futuros desejável, possível e provável. Após avaliar os fatores que dificultam ou auxiliam na conquista das metas desejadas, são desenhadas estratégias para se atingir aquilo que se deseja coletivamente.

Para estas oficinas, nos sete distritos dos vales remotos e montanhosos da Papua Nova Guiné, convidamos o diretor da escola secundária local, administradores provinciais, políticos locais, magistrados das cortes dos vilarejos, supervisores de turmas de alfabetização, agentes de saúde, membros da equipe de planejamento do distrito, missionários, líderes religiosos e líderes de grupos de jovens e de mulheres. Após uma semana de trabalho em conjunto, eles deveriam definir as prioridades para o desenvolvimento local, que seriam incluídas no plano distrital. Este seria tecido em um Plano Provincial nos moldes desejados pelo Escritório Nacional de Planejamento.

Eu me lembro de estar sentado ao lado de Francis Awesa, então Oficial de Planejamento Provincial, quando se levantou um homem idoso, que não havia falado durante os encontros em Mendi. De pés descalços, usava um terno surrado, um cinto escuro e um avental típico feito na vila, com folhas de dracena cobrindo suas nádegas. Um silêncio de expectativa desceu sobre o recinto quando ele começou a cantar. Como eu não entendia a língua local, Anggal Heneng, eu perguntei ao Francis “O que ele está dizendo?” Francis pediu para que eu me silenciasse e ele me diria assim que o canto terminasse.

Parece que o homem era da vila que ficava acima de Mendi, a capital da província. Foi ele que, quando menino, teve contato com os primeiros europeus e os guiou vale acima. Até então o seu povo não tinha ideia da existência de um mundo mais amplo. Ele também foi o líder que pouco depois persuadiu o seu povo a abrir mão da terra sobre a qual a capital da província foi construída. Ele cantou como, sentado em sua montanha, assistiu os europeus fazerem coisas que ele nunca havia imaginado ser possíveis. Muitas eram as maravilhas das quais seu povo tinha grande necessidade. Contudo, disse também que viu os europeus fazendo coisas que eram completamente estúpidas e que de forma alguma deveriam ser disseminadas em meio ao seu povo.

Observando as maneiras dos Kondol ou “homens vermelhos”, como ele chamava a nós europeus (pela forma como ficamos facilmente vermelhos quando expostos ao Sol das Terras Altas), ele também começou a ver o seu povo de uma nova maneira. Ele viu coisas de seu povo que eram verdadeiramente maravilhosas e de grande utilidade para os europeus. Ao mesmo tempo, viu coisas em seu povo que eram igualmente estúpidas e que não deveriam ser espalhadas.

Segundo o ancião, o verdadeiro desenvolvimento provincial era um novo tipo de ponte a ser construída entre os dois povos. Poderia começar, ele sugeriu, como uma simples ponte de cordas, mas deveria ter um portão em cada ponta. Do lado europeu, deveria deixar passar as características necessárias para um futuro desejável e excluir as coisas indesejáveis. O mesmo deveria acontecer do lado das vilas tradicionais da Papua Nova Guiné. Quando mais e mais pessoas entrassem na ponte, esta deveria ser refeita, primeiro com madeira e depois com aço e concreto, permitindo que cada vez mais pessoas de seu povo pudessem subir à ponte. Um dia, ele profetizou, todos estariam sobre a ponte, e seria possível desmantelar os portões em cada ponta, pois o verdadeiro desenvolvimento estaria acontecendo. O desempenho da sua oratória cantada foi virtuoso, provavelmente sem igual nos nossos dias. Ele se sentou e um silêncio profundo e respeitoso pairou sobre o recinto.

Para mim, esta imagem gráfica, criada pelo canto de um homem analfabeto, porém de grande sabedoria, traz a verdadeira fonte da arte sustentável do Dragon Dreaming, o segredo de tornar os sonhos em realidade. Dragon Dreaming é a arte de se construir pontes, criando a estrutura que liga o ponto em que estamos hoje ao ponto no qual gostaríamos de estar, e que permite que nos movamos seguramente através desta ponte desde onde nós somos agora até o que poderemos vir a ser. No entanto, diferente das pontes normais, esta ponte é construída ao longo do percurso. E, como toda jornada, se inicia com um único passo.

Quer saber mais sobre o Dragon Dreaming? Assista ao estes dois vídeos de John Croft: clique aqui e aqui.

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